Classificados

Vendo antena paranóica.

[Ganhei do Ubaldo, cria do Henfil.]

Pouco uso.

Troco por vitrola ansiolítica ou tevê metafí­sica.

[Pago a diferença com balas Juquinha.]

Lógica

Leio:

- Albert Camus era um depressivo.
- Eu sou um depressivo; logo, eu sou Albert Camus!!
- Mas se eu fosse Albert Camus, deixava de ser depressivo.
- E acabada a depressão, nada de Albert Camus…

[Vou ali me espatifar contra uma árvore e já volto.]

Sem título (início da 4a. parte)

[Para quem não conhece, aqui vão os links para a parte 1, parte 2 e parte 3]

IV

Chega, Pedro, chega. Cansei. Não quero mais os teus silêncios, nem os meus. Fique com eles, fique com a sua autopiedade, trepe à vontade com ela, só não peça que eu assista. E ficar me olhando assim, com esse ar perdido, não vai mais fazer diferença. Criei casca, e aqui dentro você já não cabe, deixou de fazer estrago. Ah, o meu irmão vem amanhã apanhar as minhas coisas. Acho melhor você não estar em casa, porque ele anda com uma vontade louca de te dar uma surra daquelas.

Foi a última coisa que ouvi a Clara dizer, daqui a pouco faz aniversário. Nem sei se ela bateu a porta ou se quem fechou fui eu, mas as três voltas no ferrolho tenho certeza que dei. Ela disse mais, acho até que despejou tudo o que pensava de mim. Disso eu lembro bem, e olha que é raro eu lembrar desse tipo de conversa. Mas agora, começando a me adaptar ao cansaço das pernas e sabendo que não há nada a fazer a não ser andar, era hora do clichê “filminho da sua vida passando numa fração de segundo” dar o ar da graça, sorte minha que sem sinal de morte por perto. Ou seja, tudo a ver que as palavras dela anunciando o fim da festa viessem dar um alô.

Sou um típico homem. Avisei logo, antes mesmo do primeiro beijo. Ela riu. Minto, foi um sorriso, daqueles de quem entende tudo errado. Adoro esse teu jeito metido a modesto, respondeu, no intervalo entre o segundo e o terceiro beijo. Não sou modesto, Clara, vai por mim, e agora sei que ela ouviu, mas não escutou. Aliás, durante um bom tempo, coisa de um ano e pouco, ela continuou sem acreditar naquilo que eu falei. Não sei por que, as mulheres entendem tudo tão depressa, pescam as nossas rateadas sem nem precisar apelar para o olho no olho, e a Clara era das mais espertas que já conheci. Ou vai ver que sei, na verdade elas entendem direitinho e por isso mesmo guardam naquela gaveta dos projetos, ali junto dos planos de fazer com que a gente diga eu te amo mais vezes, que tope usar camisa listrada e pare de partir o cabelo de lado, do jeito que o nosso pai fazia.

Sou uma típica mulher. Ela nunca disse isso, mas devia. Transparente se necessário, dissimulada de vez em quando. E agressiva, de um jeito que só começou na geração dela, embora na cama fosse um doce. Pena que lembro pouco da nossa cama. Mentira, lembro bem, mas prefiro não tocar no assunto. Dói, quase dor de corno. E se desse para tirar esse quase, eu seria o certo da história.

A conversa começou às quatro e meia, logo que eu cheguei do trabalho. Não sei bem se foi conversa, até porque ela tinha razão naquela história dos silêncios. Pelo menos dessa vez não pareceu disposta a me ouvir, e o fiozinho de esperança, se é que ela ainda tinha algum, ficou guardado para o próximo. Pedro, você é uma farsa, foi o pontapé inicial da partida. Eu não gosto de futebol, falei para dentro. Parece que ela ouviu, ficou mordida e ganhou de lavada.

* * *

[Ainda falta muita coisa para dizer sobre a Clara e sobre essa conversa dos dois. O quê, ainda não sei direito. De cara, devo ampliar esse parágrafo da Clara "típica mulher".
E continua, hora dessas.]

Dois pontos. (Uns três, fora o de ônibus.)

Tá, agora entendi:
1) o mundo deu um porrilhão de voltas sem mim; e
2) você continuou embarcada nele.
Resultado: não temos mais nada a ver um com o outro.
Mas
antes d’eu assinar, me explica uma coisa: em qual dessas voltas você e a Alice viraram — faz sinal de aspas com os dedos — “feitas uma pra outra?”

Conversa quase críptica entreouvida por aí. Eu disse quase.

Prece

Deus, se você de fato for o bã-bã-bã que tanta gente diz que é, dá pra quebrar um galho? Por favor, faça com que uma nova palavra ou expressão idiomática brote, automaticamente, da boca de cada indivíduo que ousar dizer

AGREGAR VALOR”

Se isso acontecer, passo não só a acreditar em você, como também a te levar em conta, pro resto da minha insignificante vida.

Amém.

P.S. Me deixar surdo não vale, tá?

Comentários (alheios) sobre ciência e ateísmo

Um raciocínio interessante, proferido por um amigo virtual, Alexis Kauffmann. O post onde apresenta esse raciocínio dirige-se sobretudo àqueles que andam usando o (e abusando do) discurso científico para validar seu ateísmo. (Aliás, pregação religiosa ou pregação ateísta são chatíssimas…) Embora eu questione a afirmação de que o ateísmo seria “… uma religião como outra qualquer”, esse meu questionamento se aplica apenas à inadequação da palavra “religião” no sentido estrito, isto é, religare — “tornar a unir” — e religione — “Crença na existência de uma força ou forças sobrenaturais, considerada(s) como criadora(s) do Universo, e que como tal deve(m) ser adorada(s) e obedecida(s)” (Aurélio Eletrônico) —, mas não à dinâmica de ateus e crentes em torno de suas respectivas crenças. Esse é o meu argumento: ambos, teísmo e ateísmo, são crenças, ponto. Mas passo logo a palavra para o Alexis:

(1) A Ciência é cética, não ateísta. Qualquer um que procure na Ciência uma justificativa ou fundamento para sua ideologia ateísta deveria aprender um pouco mais sobre Ciência.
(2) O ateísmo é, portanto, uma religião como outra qualquer, cheia de certezas irracionais e vazia de qualquer outro fundamento que não seja o desejo dos ateístas de NÃO crer em Deus.
(…)
As melhores coisas que a Ciência pode fazer sobre Deus são declarações céticas como “Não há nada que podemos afirmar sobre esse assunto”, “esse assunto de Deus não é sujeito a estudos científicos”, etc.
Mesmo que um cientista, ou muitos cientistas, ou mesmo TODOS os cientistas declarassem publicamente suas visões de mundo ateístas, isto não seria suficiente para afirmar que a Ciência propriamente dita é ateísta.
A Ciência, muito diversamente das religiões (inclusive o ateísmo) não finge que sabe cada pequena coisa no Universo. Ela é movida pela simples (e fantástica) ambição de aprender, no longo prazo, tudo o que é possível de ser conhecido no Universo.
A Ciência não exclui a hipótese de que, talvez, haja coisas que existem mas, infelizmente, não sejam possíveis de conhecer com qualquer método ou instrumento concebível, agora ou em qualquer tempo no futuro.
Assim, cientificamente falando, as pessoas precisam aceitar que sempre poderá haver algo como um “Deus” nesse hipotético conjunto de coisas existentes mas incognoscíveis.
Antes que alguém grite: eu não estou defendendo a religião. Se Deus é no reino das coisas incognoscíveis, então todas as religiões são contrafações, pois fingem conhecer intimamente algo que elas não podem saber de maneira alguma!
Indo além: só quem nunca trabalhou produzindo Ciência, nunca leu uma revista científica ou sequer uma bula de remédio, acredita que a Ciência “prova” a não-existência de Deus.
Para começar, ver a Ciência provando inequivocamente alguma coisa não é um evento tão freqüente quanto sugere a Superintessante.
Quem já trabalhou um pouquinho que seja sob a vara do método científico, sabe muito bem que produzir Ciência é, na sua maior parte, um trabalho de aproximações, estimativas, probabilidades e margens de erro. O discurso científico é enunciado necessariamente sob o império de definições restritas - a Ciência deixa para os filósofos o encargo das definições amplas. A verdade da Ciência é contingencial, isto é, válida apenas sob um determinado conjunto de circunstâncias variáveis. Mude as variáveis e a verdade muda.
Depois, a própria Ciência se encarrega de definir os próprios limites. Vamos deixar de lado a impossibilidade — “cientificamente demonstrada” — de saber a posição exata de partículas subatômicas, e vamos para o prosaico reino das mesquinhas preocupações humanas. Pergunte a cientistas bem-informados se…

1 - É possível prever se vai chover em Pindamonhangaba no dia de meu aniversário no ano de 2047?
2 - É possível calcular antecipadamente o placar de uma partida de basquete?
3 - É possível dizer se você será vítima de um assalto em algum dia dos próximos 5 anos?
4 - É possível afirmar que algum dos leitores deste post ganhará algum prêmio na Mega Sena nos próximos 10 anos?

Nem preciso dizer qual será a resposta para todas as perguntas.
A Ciência só pode afirmar que, com grande probabilidade, vai chover algumas vezes em Pindamonhangaba entre hoje e 2047. Pode até estimar quantas vezes e errar por pouco.
A Ciência também permite prever qual o time tem maior chance de ganhar uma partida basquete.
Também pode calcular a probabilidade de que alguém sofra um assalto num período de cinco anos a contar de hoje.
Ou ainda, a probabilidade de que pelo menos uma pessoa, em um dado conjunto de pessoas, ganhe algum prêmio na Mega Sena nos próximos 10 anos.
As singelas perguntas acima, da maneira como estão formuladas, envolvem variáveis demais, sendo que muitas dessas variáveis não são sequer quantificáveis.
Por exemplo, o placar de uma partida de basquete depende, além de incontáveis milhões de variáveis objetivas, da “motivação” dos jogadores e da equipe. Como inserir uma variável tão volátil como a “motivação” (um time motivado no primeiro quarto pode virar subitamente um time desmotivado no segundo quarto, como quem já assistiu qualquer partida de qualquer esporte pode testemunhar) em um modelo que permita uma margem mínima de previsibilidade?
Mesmo com todo o inegável avanço da Ciência, foguetes explodem antes de serem lançados, aviões cheios de passageiros caem, pessoas são atingidas por raios e até cardiologistas conceituados morrem de enfarte.
Um argumento recorrente e muito mal empregado pelos ateus na defesa de suas teses é o princípio de Occam: “quando duas teorias concorrentes podem ser ambas adequadas para explicar um dado fenômeno, deve-se preferir a mais simples”.
O princípio de Occam é prático. Mas significa apenas que, à falta de um critério melhor, deve-se utilizar a explicação mais simples até que novos dados sugiram o contrário, e NÃO que a explicação mais complexa seja necessariamente falsa em todas as ocasiões! Trata-se apenas de uma regra de bom-senso para guiar ações em situações de incerteza.
Outro dado que os ateus esquecem em seus discursos inflamados quando citam as realizações tecnológicas como provas da superioridade da Ciência é que, de fato, NÃO é necessário saber exatamente como e porque uma coisa funciona para que ela possa funcionar!
Besouros voam sem saber aerodinâmica, patos flutuam sem saber nada sobre construção naval.
E na bula do remédio cientificamente produzido pela indústria farmacêutica e cientificamente receitado pelo seu médico, provavelmente vem escrito uma frase como “o mecanismo de ação da [NOME DO COMPONENTE DA FÓRMULA] não é bem conhecido…”
Há muito mais besteirol no discurso ateísta, mas vou parando por aqui. Acho que, por hora, podemos afirmar que é preciso saber muito pouco sobre Ciência em geral para afirmar que ela “prova” que Deus não existe e que, portanto, os ateus não são menos cegos do que o fiel rebanho da maioria das religiões que tanto criticam.
[Grifos meus.]

Queria ter escrito tudo isso.

Chame o Foucault [2]

Ainda na entrevista a Foucault,

“No decorrer dos séculos que se seguiram à Antiguidade, a amizade se constituiu em uma relação social muito importante: uma relação social no interior da qual os indivíduos dispõem de uma certa liberdade, de uma certa forma de escolha (limitada, claramente), que lhes permitia também viver relações afetivas muito intensas. A amizade tinha também implicações econômicas e sociais – o indivíduo devia auxiliar seus amigos, etc. Eu penso que, no séc. XVI e no séc. XVII, viu-se desaparecer esse tipo de amizade, no meio da sociedade masculina. E a amizade começa a tornar-se outra coisa. A partir do séc. XVI, encontram-se textos que criticam explicitamente a amizade, que é considerada como algo perigoso. (…)
Enquanto a amizade representou algo importante, enquanto ela era socialmente aceita, não era observado que os homens mantivessem entre eles relações sexuais. Não se poderia simplesmente dizer que eles não as tinham, mas que elas não tinham importância. Isso não tinha nenhuma implicação social, as coisas eram culturalmente aceitas. Que eles fizessem amor ou que eles se abraçassem não tinha a menor importância. Absolutamente nenhuma. Uma vez desaparecida a amizade enquanto relação culturalmente aceita, a questão é colocada: ‘que fazem, então, dois homens juntos?’ E neste momento o problema apareceu. Em nossos dias, quando os homens fazem amor ou têm relações sexuais, isso é percebido como um problema. Estou seguro de ter razão: a desaparição da amizade enquanto relação social e o fato da homossexualidade ser declarada como problema social, político e médico fazem parte do mesmo processo.” (Grifos meus)

É uma tese ousada, penso eu. Mas, ao mesmo tempo, ela segue a “lógica das proibições”, onde aquilo que é interdito chama a atenção para algo que antes não tinha importância. E uma vez proibido… Claro, é preciso muito cuidado ao falar dessa lógica, pois nem de longe o comportamento humano, especialmente aquele em sociedade, é tão simples. Não se trata de permitir tudo, acreditando que as coisas “se acomodarão sozinhas”, e sempre da melhor maneira. Pelo contrário: é preciso discutir bastante, estabelecendo acordos sobre um conjunto considerável de formas de convívio e práticas sociais, revisando-as sempre que necessário. Ao mesmo tempo, é preciso cuidado ao usar como principal critério a simples manutenção daquilo que foi consagrado pela tradição. Ela nem sempre tem a melhor palavra, e basta para isso lembrar o caso da mutilação genital feminina (MGF), para darmos um doloroso e condenável exemplo.

Enfim, para além dessas observações que fiz sobre a entrevista do Foucault, o que penso ser mais importante é a valorização da amizade. E o sexo? Ah, sem regras definidas por lei, por favor. Cada amizade que estabeleça os seus critérios, ora bolas!

Remédio

Depressão, das brabas. E mandona, ainda por cima. Só queria saber de ouvir Elis, e cantando “Atrás da Porta”. Atendendo às exigências da megera, Mauro encontrou uma versão em vídeo. Pôs o som no dez, deitou a cabeça sobre a escrivaninha e esperou o cutelo daquela voz cortar-lhe o fiapo de vida.

[Pausa para ver o vídeo.]

[Acabou a pausa.]

Pimentinha às lágrimas, rímel borrado. “Bis!”, gritou a deprê, cinco vezes. Só na sexta percebeu os aplausos: a versão era ao vivo. Tarde demais.“Obrigado, Elis, tua platéia é melhor que sertralina, pensou Mauro em voz alta, enquanto desligava o monitor, feliz da vida.

Obama, província de Fukui - Japão

[Os dados deste post vieram inteiramente de uma amiga "brasijapa", que prefiro manter anônima. Ainda assim, são dados públicos... que eu desconhecia!]

Muitos já devem saber que no Japão existe uma cidade chamada Obama, e que seus habitantes torciam pelo candidato democrata quando ele ainda disputava com a Hillary.

Aliás, o próprio Barack mandou uma carta para o prefeito da cidade, agradecendo o apoio e dizendo “nossos laços são maiores do que o nome em comum”. (Menos, Barack, menos!)

E como sabido o resultado das eleições, os obamenses japoneses não podiam estar mais contentes.

Com o propósito de contribuir para a circulação de notícias de grande relevância, colo abaixo a matéria publicada no jornal japonês Kyodo News na versão original traduzida pela minha amiga brasijapa. (Infelizmente o WordPress não está aceitando os caracteres em japonês, terão que confiar em mim e na minha amiga):

Cidade de OBAMA, província de FUKUI - “Presidente, venha a OBAMA”

“Queremos que o presidente OBAMA venha a cidade de OBAMA”. Por causa da mesma pronúncia de nomes, a cidade de OBAMA em FUKUI vinha torcendo para o candidato democrata à presidência dos EUA. No dia 5,  assim que a vitória foi confirmada, cerca de 200 pessoas se reuniram no Centro Cultural da Cidade e ouvia-se gritos alegres como “Yes, we can” e “Obama, Obama”

Assim que a notícia do resultado das eleições chegou, participantes que tinham hachimakis na cabeça com caricaturas do presidente eleito explodiram de alegria gritando “Parabéns, Obama”

Kyotaka Maeno (47), responsável pelo grupo “Torcemos sem compromisso para o candidato Obama” era só sorrisos “Valeu a pena termos torcido por ele. Gostaria muito que ele viesse à cidade Obama” - disse ele, depositando esperanças no novo presidente. O grupo tem cerca de 1.300 associados.

O salão de comemoração foi decorado com flores e estudantes americanos residentes na cidade de Obama cantavam abraçados, num clima muito festivo. Os aplausos para o grupo de dança havaiano “Obama Girls” e “Obama Boys” foi estrondoso.

5/11/2008  14:12 hs

[Abaixo, o doce de feijão do Obama, OBAMA MANJYU. O apelido é OBAMAN.]

Obamam

Sinistroses e canhotismos

Sim sou canhoto. Sinistro, se quiser. E a terceira acepção do dicionário Aulete avisa que também se trata de uma forma jocosa de chamar alguém “de esquerda; que tem idéias ou tendências socialistas, ou comunistas”. Que seja. Fato é que o mundo em que vivo não foi feito para facilitar a vida dos canhotos (nem de qualquer outra minoria). Vai ver que é por isso que temos uma capacidade de adaptação reconhecidamente acima da média, não? Mas não vou entrar em querelas do gênero “biologia vs. cultura”, porque hoje é dia de bestagem.

Depois de ler tudo o que pude — cansei logo — sobre a eleição de Barack Obama à presidência dos EUA, segui meu diário passeio pela lista de blogs aí ao lado, começando por um dos meus diletos vizinhos, o Milton Ribeiro. E foi lá, em seu último (e ótimo) post, depois de ler o subtítulo “Segundo Movimento - Adágio Periódico”, que acabei lembrando de um evento libertador, compartilhado agora com vocês. Trata-se de uma tomada de posição frente à ditadura das publicações ocidentais, essas mesmas onde se costuma ler da esquerda para a direita, e de cima para baixo. E qual a relação disso com o meu canhotismo? Se você é destro, talvez nem desconfie. Mas se for canhoto, é certo que entenderá. Acontece, meus caros, que como muitos já sabem, gosto à beça de folhear livros. E às vezes quero passear rapidamente pelas páginas, até os meus olhos se depararem com algo que me interesse. Ora, como os destros fariam algo assim? Grosso modo, suspeito que a maioria apoiaria a lombada na palma da mão esquerda, com os quatro dedos estendendo-se até a contra-capa, enquanto com a mão direita, também apoiando a contra-capa nos quatro dedos, usariam o polegar para fazer com que as páginas “corressem” da direita para a esquerda, começando pela capa, até chegar ao fim do livro. Simples, não? Mas para os canhotos as coisas não funcionam assim. Se eles fizerem o mesmo, mas com as mãos trocadas, terão o desprazer de conhecer o fim da história antes de saber o começo, pois folheariam a partir da contra-capa! (Habilidosos que somos, é claro que nos adaptamos a este mundo hostil e acabamos desenvolvendo estratégias para dar conta da indiferença dos destros, que por isso mesmo nem percebem o que se passa com suas imagens no espelho. E nem sequer precisamos ser leitores de mangá para isso!)

Bom, diante desse quadro, e num tempo (anos 80 do século passado) e num lugar (Cidade do México) em que um aluno universitário que copiasse livros esgotados não era visto como um criminoso, resolvi que o livro “Incidentes Críticos en Psicoterapia”, de Standal e Corsini, representaria a minha alforria, o meu grito de independência e a afirmação de que, embora agnóstico, também sou filho de Deus. E na seqüência de fotos abaixo, verão que o errado tornou-se certo. Agora só falta a paz mundial.

Criatividade?

Quando digo que sobra sexo, vocês não acreditam. Alguém passou aqui no Ágora depois de procurar no Google por:

“Filosofia quântica para conquistar mulher”

Chame o Foucault [1]

Este post relaciona-se (em parte) ao anterior, não sem dialogar com outros, em particular com o que trata do tema das relações de amizade. Ainda não sei bem o que tenho a dizer, pois pouco dá para falar quando a palavra está com Foucault, como é o caso da entrevista intitulada Sexo, poder e a política da identidade (vale uma lida), que por fortuna um comentarista do Weblog lincou.

Assumo a grave falha de não conhecer a fundo a obra de Michel Foucault. (É claro que se trata de um mea culpa ardiloso, antecipando-me a prováveis críticas sobre esta minha leitura dos argumentos do autor.) Apesar disso, creio poder adiantar que, a meu ver, é preciso ler a entrevista levando em consideração as mudanças na sociedade em relação à época em que ela foi feita. A AIDS, que tanto influiu no comportamento sexual na década de 80 do século passado (e que vitimou o próprio Foucault em 9 de junho de 1984), diminuiu a sua força por conta dos coquetéis de medicamentos surgidos nos últimos anos. Ao mesmo tempo, a sexualidade perdeu muito de sua aura de tabu, sendo fortemente assimilada pela indústria cultural. E vale dizer que com a internet elevou-se à enésima potência a facilidade de acesso a material de cunho sexual — erótico ou pornográfico, não importa —, fazendo com que vários exemplos dados na entrevista — “sub-cultura S/M” [Sado-masoquista],  “filmes gueto-pornôs” etc. —, hoje em dia sejam bem menos marginais.  Ainda assim, várias são as reflexões desse texto que seguem atuais — e me interessam. Para começar, quando ele comenta, por exemplo, que

“A sexualidade é algo que nós mesmos criamos — ela é nossa própria criação, ou melhor, ela não é a descoberta de um aspecto secreto de nosso desejo. Nós devemos compreender que, com nossos desejos, através deles, se instauram novas formas de relações, novas formas de amor e novas formas de criação. O sexo não é uma fatalidade; ele é uma possibilidade de aceder a uma vida criativa.”

Impossível não lembrar de Simone de Beauvoir e sua clássica citação:

“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico, define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino. Só a mediação de outrem pode constituir um indivíduo como outro.” (Beauvoir, O Segundo Sexo, 1980, p. 9)

Voltando à entrevista, Foucault avança sobre a questão do prazer, propondo, entre outras coisas, que ele deva ser dessexualizado, acrescentando que

“A idéia de que o prazer físico provém sempre do prazer sexual e a idéia de que o prazer sexual é a base de todos os prazeres possíveis, penso, é verdadeiramente algo de falso. (…)
A possibilidade de utilizar nossos corpos como uma fonte possível de uma multiplicidade de prazeres é muito importante. Se consideramos, por exemplo, a construção tradicional do prazer, constata-se que os prazeres físicos, ou os prazeres da carne, são sempre a bebida, a comida e o sexo. É ai que se limita, me parece, nossa compreensão dos corpos, dos prazeres. O que me frustra, por exemplo, que se considere sempre o problema das drogas exclusivamente em termos de liberdade ou de proibição. Penso que as drogas deveriam tornar-se elemento de nossa cultura.”

Aplaudo esse ponto, que atravessa a entrevista inteira (inclusive o seu chamado à reflexão sobre as drogas, que ele desenvolve linhas depois) — e não duvido que atravesse a própria obra de Foucault, só não a conheço para afirmar algo assim (ah, mais “desculpas providenciais”…). Mas se por um lado a noção de prazer é apresentada de forma libertária, ligada a uma multiplicidade de escolhas, por outro, fico sempre insatisfeito com a utilização do prazer como régua e compasso do que fazer com nossas vidas. É que por mais que “a versão” apresentada por Foucault sobre o prazer “afaste-o” um pouco do sexo, ela ainda localiza a atividade humana ao redor dessa “versão ampliada” do prazer. E da minha parte, defendo que o sentido é mais central (e interessante) do que o prazer como motor do homem (falei sobre o sentido aqui e aqui). O sentido pode até mesmo ser colocado no prazer, dependerá da escolha de cada um. Mas há de se ter em mente que se trata de reduzi-lo ao prazer. E por mais que este último seja quase interminável, é ainda uma versão limitada das possibilidades humanas, penso eu.

E para não alongar mais este assunto, deixo o resto de minhas singelas reflexões para o próximo post.

Sobre sexo: sobra sexo

“Si tu avances et tu recules,
Comment veux-tu,
comment veux-tu que je t’encule?…”

O caminho para chegar a esse versinho foi típico da internet: em uma lista de discussão, um dos participantes falou da Paula Lee. Esta, por sua vez, comentou em seu blog  sobre alguns livros da Valérie Tasso, dando o endereço de sua página, onde acabei encontrando o verso aí de cima. “Músicas de taberna”, diz Valérie, aprendidas enquanto fazia seu doutorado em Estrasburgo.

Paula Lee me parece uma moça bacana, há de ser um ótimo papo. Idem para Valérie, que suponho que fale espanhol — ela mora em Barcelona — com um ligeiro sotaque francês que lhe acentue o charme. Mas confesso uma coisa: a idéia de ler seus livros me dá uma preguiça dos demônios. Motivo? O sexo como temática central, e ainda por cima com roupagem autobiográfica.

Estou certo que as duas escrevem bem, nos respectivos sítios isso se nota logo. Se por outro lado são pessoas fascinantes ou não, faltam-me subsídios. O que de fato quero dizer é que o meu (pré-)juízo não é literário, e muito menos sobre o quão interessantes ambas hão de ser. Mas no que me diz respeito, preferiria conhecer os aspectos de suas vidas que elas não abordaram em seus livros. Ou seja, em relação à sexualidade, centro de suas obras literárias, admito que ela gera em mim uma espécie de fastio, nos termos da segunda acepção da palavra que encontro no dicionário Aulete: “enfado, tédio, aborrecimento”; e que esses sentimentos estão diretamente vinculados à enxurrada de referências sobre o tema. É como se estivesse empanzinado pela quantidade de textos ficcionais, biográficos, autobiográficos e até mesmo acadêmicos sobre sexo. E o chato disso é perceber que ando na contramão. (Dispenso a companhia dos moralistas de plantão, dos fanáticos religiosos e dos que por qualquer razão abdicaram do sexo. Se quiserem, eles que fundem um clube, uma ONG ou uma sociedade e vão reclamar ao bispo.)

Faço cá uma singela pergunta: qual a graça de ainda escrever obras sobre sexo? Depois de Petrônio e seu Satíricon, de Boccacio e seu Decameron, do onipresente Marquês de Sade, e mesmo do Kama Sutra de  Vatsyayana, sem falar no mestre dos mestres, o grande Carlos Zéfiro, o que tanto ainda há para se dizer de novo sobre o assunto? Sei não, mas talvez eu devesse pedir auxílio a Lisístrata… Certo, se levarmos esse raciocínio a ferro e fogo deixaríamos de escrever qualquer coisa, dirão alguns… Mas não vou tão longe, apenas quero dar uma provocadinha de leve.

E se escrevêssemos só um pouco menos sobre sexo? Digo, que tal se o sexo fosse apenas parte, mesmo que importante, mas não exclusiva daquilo que se tem a digitar (sem duplo sentido)? Sério, tudo o que já foi escrito sobre o assunto dá para muito mais do que uma vida inteira de leitura! Aliás, vou mais longe: também não seria de todo mau se falássemos um tantinho menos de sexo. Mas não se preocupe, nada contra falar no sexo, tudo o que os ouvidos do(a) seu/sua parceiro(a) desejarem ouvir — e o seu fôlego agüentar.

P.S. Há uma discussão análoga (êpa!) acontecendo em torno de um manifesto que o ator Pedro Cardoso fez recentemente a respeito da nudez no cinema e na televisão. A Carla Rodrigues, o Sergio Leo e até O Hermenauta já se debruçaram sobre o tema. Nenhum deles o fez com trocadilho, folgo em dizer.

Vizinhos distantes

Não sei, mas por ter uma relação muito própria com a América Latina — bem mais do que mera simpatia —, gosto muito do Silvio Rodriguez, uma espécie de Chico Buarque para os cubanos. Não, não pense que sou um típico brasileiro de esquerda que se emociona com Cuba e sua revolução.  Tenho, porém, laços indiretos com esse país e sua história, e torço muito pelas pessoas que por lá vivem, pois sei que as tais conquistas que vieram depois da queda de Fulgencio Batista trouxeram consigo “efeitos colaterais” dolorosos para os cubanos, especialmente sentidos nas últimas duas décadas.

Mas voltemos ao Silvio. Sua voz é fina, diria que um fiapo, e os arranjos de suas músicas costumam soar pueris. Muitas carregam a temática da revolução cubana, como não poderia deixar de ser. Mas boa parte do seu repertório fala de amores, e para a maioria dos latino-americanos, eu inclusive, são composições que tocam fundo. E se os demais brasileiros quiserem mesmo entendê-las, não basta que dominem a língua espanhola. Comecem jogando fora as caricaturas, os sombreros, e deixem um pouco de lado os boleros e o xá-xá-xá.

[Uma pequena amostra]

De la Ausencia y de Ti
(o Velía)

Ahora sólo me queda buscarme de amante
la respiración
No mirar a los mapas, seguir en mi mismo
No andar ciertas calles,
olvidar que fue mío una vez cierto libro
O hacer la canción
Y decirte que todo esta igual
la ciudad, los amigos y el mar
esperando por ti,
esperando por ti.

Sigo yendo a Teté semana por semana
te acuerdas de allá
Hoy habló de fusiles despidiendo muertos
Yo se que ella me ama
Es por eso tal vez que te siento en su sala,
aunque ahora no estás.
Y se siente en la conversación,
o será que tengo la impresión,
de la ausencia y de ti,
de la ausencia y de ti.

No quisiera un fracaso en el sabio delito
que es recordar.
Ni en el inevitable defecto que es
la nostalgia de cosas pequeñas y tontas
Como en el tumulto pisarte los pies
Y reír y reír y reír,
Madrugadas sin ir a dormir.
Si, es distinto sin ti.
Muy distinto sin ti.

Las ideas son balas hoy día y no puedo
usar flores por ti.
Hoy quisiera ser viejo y muy sabio y poderte decir
lo que aquí no he podido decirte,
hablar como un árbol
con mi sombra hacia ti.
Como un libro salvado en el mar,
como un muerto que aprende a besar,
para ti, para ti,
para ti, para ti.

Nuestro tema

Nuestro tema está
cantado con arena,
espuma y aves del amanecer
Nuestro tema está
listo para ser
brisa de las alas migratorias
Nuestro tema es para ver llover

Nuestro tema está
desnudo en un balcón
fotografiando espigas de la mar
Nuestro tema está
viéndonos juntar
besos a las seis de la mañana
Nuestro tema es para recordar

Nuestro tema de amor
tiene quebranto,
pero su empeño
sana el dolor

Nuestro tema de amor
nos cuesta tanto
que ya es un sueño
y una canción

Nuestro tema está
en un solo de piano
y en el radio más abrazador
Nuestro tema está
en el corredor
de un hotel que se ha quedado sólo
Nuestro tema es humedad de amor

Rabo de Nube

Si me dijeran pide un deseo,
Preferiría un rabo de nube,
Un torbellino en el suelo
Y una gran ira que sube.
Un barredor de tristezas,
Un aguacero en venganza
Que cuando escampe parezca
Nuestra esperanza.

Si me dijeran pide un deseo,
Preferiría un rabo de nube,
Que se llevara lo feo
Y nos dejara el querube.
Un barredor de tristezas,
Un aguacero en venganza
Que cuando escampe parezca
Nuestra esperanza

Chutando cachorro morto

As eleições nos EUA já estão batendo na porta, e as piadas pululam. E, entre elas, encontrei uma simpática lista de comparações entre os candidatos (e os vices incluídos).

[Furtei na cara dura da pacamanca, que por sua vez pegou a dica
da Mariana Newlands. Pronto, as fontes aí estão!]

Por volta da meia-noite

Mal lembro do filme, apesar da simpatia que tenho pelo diretor Bertrand Tavernier.

Mal lembro do Dexter Gordon no papel do saxofonista Dale Turner, uma mistura de Charlie Parker, Miles Davis e Chet Baker, mesmo sabendo que concorreu ao Oscar em seu primeiro papel como ator profissional.

Mal lembro do ano de 1986, quando o filme estreou, e nem sei se o vi no México, onde morava, ou no Brasil, onde passei umas férias… de que lembro bem.

Mas se a memória escorre pelas frestas e foge a galope, em meu socorro vem este CD, com a trilha sonora de Round Midnight. Ele que me leve de novo a 86, e depois recue a 59, a uma Paris que não conheci, amante do jazz, de Bird, Miles e Chet e tantos outros, e que me deixe sonhar com ela, feito o François Cluzet do filme, que não conseguiu salvar Dale Turner do seu trágico destino, mas conseguiu roubar da morte alguns minutos de magia e nos deixou de presente.


[Dexter Gordon, 1948]

Deixo com vocês uma pequena amostra da trilha sonora, a ser ouvida bem longe do meio-dia.

[Espere só mais um pouco, às vezes o aplicativo do Imeem,
de onde vem as músicas, demora a carregar.]

Cidade partida? Ué, já não estava? Rescaldo da eleição de ontem, cá no Rio de Janeiro

Segunda-feira, 27 de outubro de 2008. Aconteceu o que previa, mas não o que desejava. No Rio de Janeiro, Eduardo Paes elegeu-se prefeito, vencendo o candidato Fernado Gabeira por uma diferença de 55.225 votos — num universo de 4.579.365 eleitores. Houve 927.250 abstenções, 222.796 votos nulos e 92.154 votos em branco. Ou seja, somados, esses três tipos de eleitor alcançaram 1.242.200. Se pensarmos que o candidato eleito somou 1.696.195 votos, dá para ver que nem tudo são flores na percepção do eleitorado carioca.

Não vou fazer nenhuma análise aprofundada sobre esses dados. Há gente competente para fazê-lo, e no que se refere a reflexões políticas, não passo de um simples eleitor. Porém, como cidadão que habita o Rio de Janeiro há vinte e um anos, dou-me ao direito de fazer uma ou outra observação, ainda que a ressaca me obrigue a ser conservador em relação às mesmas.

Já li por aí que depois de um resultado tão apertado, a cidade estaria politicamente partida, e que isso traria alguma conseqüência para os rumos de sua administração. Digo eu: cidade partida por conta do resultado das eleições? Ontem, talvez. Hoje, apesar da ressaca, já não muito. Semana que vem? Nada. Partida sim, mas nos termos do jornalista Zuenir Ventura, não nos de uma suposta polarização político-ideológica a partir dos candidatos a prefeito. A mobilização de todos os que votamos no Gabeira, acima de tudo espontânea, refletindo o “não” a essa forma abjeta de se fazer política e gerenciar uma cidade como o Rio, de pouco adiantará. Por quê digo isso? Porque entendo que tratou-se de uma mobilização pontual, episódica, por mais que o sentimento de desagrado em relação ao horror que a cidade vem vivendo nas últimas décadas siga intenso.

E agora? Pois digo que seguiremos queixando-nos cá na esfera virtual, e cada um continuará no caminho que já trilhava — engajado ou não em práticas em prol da sociedade —, mas lamento dizer que não creio que ficará qualquer tipo de lição, qualquer nova mobilização… Desde o início do processo de redemocratização do país, aqui no Rio de Janeiro já abraçamos a Lagoa, nos vestimos de preto num domingo de sol como reação espontânea ao chamamento do Collor para que vestíssemos verde e amarelo — algo que depois virou o movimento organizado que pôs o próprio Collor para fora —, já fizemos panelaços, buzinaços… mas a cidade, maltratada, não melhorou. A câmara dos vereadores segue sendo em grande parte a mesma pocilga, a dos deputados estaduais idem, e os partidos de esquerda, no Rio, mesmo dizendo-se “progressistas”, seguem sem entender nada da cidade, continuando pequenos, mesquinhos, clientelistas e defensores de práticas corporativas. A máquina governamental seguirá ocupada com a prática de alimentar a si mesma, de sugar verbas bilionárias para a interminável despoluição da baía de Guanabara, de continuar sua relação subserviente com às empresas de ônibus, o carioca seguirá jogando lixo nas ruas, estacionando em fila dupla, tripla, simpático porém cínico.

A ressaca, nesta segunda-feira abafada e nublada, me fez soar desencantado. Mas, de fato, reconheço é estar cansado de tanto enxugar gelo.

Atualização:
1) Sempre votei em partidos de esquerda.
2) Mesmo acusando-os de não entender o Rio, não os responsabilizo pela derrota do Gabeira. Foi uma soma de fatores, e a esquerda teve participação minoritária — embora não inexpressiva — no resultado das eleições.
3) Se o Eduardo Paes vendeu uma imagem de conhecedor da cidade e dos aspectos técnicos que envolvem sua administração, temo que o político Eduardo Paes não esteja tão bem na foto e seja facilmente engolido pelos inúmeros apoios que recebeu.

Impasses

Recortes do artigo Por uma Ética e uma Política da Amizade, de Francisco Ortega (IMS-UERJ):

“Na atualidade estamos dominados pela crença de que a proximidade constitui um valor moral, o que nos leva a desenvolver nossa individualidade na proximidade dos outros. A ideologia da intimidade transforma todas as categorias políticas em psicológicas e mede a autenticidade de uma relação social em virtude de sua capacidade de reproduzir as necessidades íntimas e psicológicas dos indivíduos envolvidos. Com isso, esquecemos que a procura de autenticidade individual e a tirania política são com freqüência dois lados da mesma moeda. É necessária uma distância entre os indivíduos para poder ser sociável. O contato íntimo e a sociabilidade são inversamente proporcionais. Quando aumenta um, o outro diminui; quanto mais se aproximam os indivíduos, menos sociáveis, mais dolorosas e fratricidas são suas relações.” (Grifos meus)

É curioso destacar, neste texto, um trecho que, em tese, critica a minha pregação em prol da amizade. (E os meus grifos só pioram as coisas.) Aliás, ontem mesmo, a propósito de um belo post que li, comentei sobre uma trupe de amigos que aparece nos filmes O Declínio do Império Americano e Invasões Bárbaras (ambos do Denys Arcand). No segundo, já na condição de derrotados em suas utopias, fracassados em seus desejos de transformar o mundo, percebem que é justo a amizade e o conjunto de valores comuns que fazem com que suas vidas guardem algum sentido. Mas devo admitir que, no filme, essa amizade flerta com a intimidade criticada no texto aí de cima, embora não chegue a significar uma “derrocada da civilidade”, como sugere Francisco Ortega a propósito dessa valorização contemporânea da ideologia da intimidade. Aliás, devolvo a palavra ao Ortega:

“Vivemos em uma sociedade que nos incita continuamente a ‘desnudar-nos’ emocionalmente, que fomenta todo tipo de terapias, verdadeiras dramaturgias da intimidade. A conseqüência é a decomposição da ‘civilidade’, entendida como o movimento aparentemente contraditório de se proteger do outro e ao mesmo tempo usufruir de sua companhia. Uma forma de tratar os outros como estranhos, pois usar uma máscara, cultivar a aparência, constitui a essência da civilidade, como modo de fugir da identidade, e de criar um vínculo social baseado na distância entre os homens que não aspira ser superada. O comportamento civilizado, polido, exige um grande controle de si, já que não é coisa fácil conter-se e governar-se a ponto de não deixar transparecer nos gestos e na fisionomia as mais violentas emoções de sua alma. Essa faculdade de uma sociabilidade sadia e criativa, perde-se na sociedade ‘íntima’. A civilidade torna-se incivilidade, ou seja, essa habilidade tão difundida de incomodar o outro com o próprio eu, de lhe impor minha intimidade. A incivilidade teria como conseqüências os comportamentos egoístas e narcisistas e o esquecimento do outro, bem como o desinteresse na vida pública que caracterizam nossa sociedade, o refúgio no privado e na interioridade à procura de uma autenticidade, uma natureza original perdida ‘antes que a arte tenha moldado nossas maneiras’, como se lamentava Rousseau, o mais impolido dos filósofos.”

Sendo parte dessa mesma sociedade, e pertencendo a uma geração (a de 64 do século passado) tachada de alienada, pouco politizada e já bastante “umbiguista”, parece que me faltaria o distanciamento necessário para avaliar de maneira tão dura essa estratégia de valorizar a amizade como uma forma de resistência ao “fim das utopias”, ao “pragmatismo de baixo calão” é ao cinismo profissional — ou pior, à sociopatia como padrão de comportamento —, pelo fato de que ela poderia cair na tirania política, no esvaziamento ainda maior da vida pública, algo que os trechos que cito apontam com vigor. E ao mesmo tempo reconheço como é difícil avaliar positivamente esse comportamento civilizado descrito acima, já que por mais que o autor fale que esse “controle de si” — a temperança, a educação dos sentidos etc. — é fundamental para a vida em sociedade, parece sugerir um caminho que distanciaria o sujeito de si mesmo… ahá!, este é o ponto crítico, essa idéia de que haveria algo como um “si-mesmo” “autêntico”, um “eu” enterrado nas profundezas de nós mesmos que seria a nossa verdade, aquele que “realmente somos” e que serviria como referência última do que é certo e errado em nossas vidas pessoais… Ou como diria Neguinho da Beija-Flor, “Olha o individualismo levado às últimas conseqüências aí, gente!”.

Agora só mais uma citação tirada do texto, a última, prometo. É do cineasta Roberto Rossellini:

“O mundo de hoje é muito inutilmente cruel. Crueldade é violar a personalidade de alguém, é colocá-lo em uma condição tal que chegue a uma confissão total e gratuita. Se fosse uma confissão visando um fim determinado eu o aceitaria, mas é o exercício de um voyeur, de um torpe, reconheçamos, é cruel. Acredito firmemente que a crueldade é sempre uma manifestação de infantilismo”.

O que o Rossellini disse décadas atrás, bem antes dos BBB’s e demais Reality Shows, programas de “lavação (pública) de roupa suja (privada)” e Revistas “Caras”, definitivamente me faz seguir valorizando as relações de amizade e a privacidade ao máximo, mesmo com os riscos apontados pelo Francisco Ortega. Mas confesso, não tenho soluções para lidar com isso, nem respostas para tudo o que comentei antes. No máximo, mantenho-me o suficientemente disponível para refletir, ponderar, ouvir críticas a respeito e debater com outros — mais velhos, mais novos e da mesma geração. Enquanto as respostas não vêm, vou coletando dados por aí, e não apenas aqueles que reforcem as minhas crenças. É difícil, reconheço. Mas a valorização da diferença, da alteridade, da perspectiva de que outros pensem de maneira diferente de mim, sendo amigos ou não, continuará sendo a minha tônica, o meu norte. Por mais difícil que seja, disso eu não abro mão.

A queda, a fratura e o gesso [2]

Quinta-feira, 23 de outubro, por volta do meio-dia. Jair e Célia à mesa, onze meses depois. Dona Semírames na cozinha, passando um café.

— Célia, precisamos conversar.

— Que foi, Jair?

— Primeiro, quero te dizer que é sério. Muito. Segundo, que você vai ter que ser forte. Muito. Terceiro, que com os oito telefonemas que dei agora de manhã, acho que deixei tudo ajeitado.

— Ajeitado pra que, criatura, fala logo, que eu tô começando a ficar agoniada.

— Aconteceu, Célia, o destino bateu na minha porta, e na sua, por tabela. Foi de manhã, você ainda não tinha acordado quando vi o vaso tingido de vermelho. Sou mesmo filho do meu pai, venho dessa linhagem maldita que nunca vai chegar aos sessenta. Intestino, é sina. Do meu avô eu só soube, mas papai eu vi. Ele se esvaiu em sangue, Célia, três dias antes de fazer cinqüenta e dois. Vi tudo mesmo, meu amor, eu tava junto, ele gemendo baixinho, se contorcendo de dor, meu pai que nunca reclamou de nada, nem quando perdeu a loja no Plano Collor, nem quando pôs pra fora aquelas pedras dos rins, três, bem grandes. E nunca esqueci, Célia, a cara transtornada que ele fez pra mim, dizia que eu queria matá-lo, me chamando de assassino, culpa da carga de morfina no organismo, que eu mesmo injetava nele, o médico me ensinou. Horrível, meu amor, horrível. Foi ali mesmo, do lado da cama do meu pai, ele encharcado de sangue e me acusando de querer sua morte, foi nesse lugar e nessa hora que mandei Deus à merda, só um Escroto podia inventar um sofrimento medonho daqueles, e ainda me fazer assistir… Sei que te contei isso tudo antes, mas a história da morfina tenho certeza que não. Mas comigo vai ser diferente, meu amor, não vou deixar você sofrer por mim, de jeito nenhum. E não ponha na cabeça que o câncer te persegue, não tem nada a ver com você, sério. Já te falei que é coisa bem mais antiga do que o que aconteceu com a sua mãe, e que o problema tá na minha família, não na sua. Falei primeiro com doutor Taub, amanhã à tarde eu me interno, aquela batelada de exames pra confirmar o caminho do fim para o qual todo Pereira Neves do sexo masculino deve marchar, de cabeça erguida. O resto também já resolvi, faz tempo que pus tudo no teu nome com usufruto pra mim, nosso advogado está pronto, só esperando o andar da carruagem. E desculpe, meu amor, desculpe te dizer isso tudo de uma vez, mas entenda que estou um pouco ansioso com a situação, além disso a gente sempre foi sincero um com o outro. Só uma coisa, uminha, que tô remoendo desde o ano passado. Aquela minha história com Carla, de que a gente foi pra cama uma vez, foi mentira. Desculpe, eu andava na merda, sei lá o que deu na minha cabeça pra inventar aquilo, mas o jeito como você reagiu, aquela raiva toda que depois virou perdão, me fez voltar a sentir um tesão danado por você. Não negue, voltar a trepar como antes nos dois meses seguintes foi a glória, vá. Mas era mentira, de verdade. Pode voltar a falar com a Carla, ela não teve culpa de nada. E pronto, falei tudo de importante, o resto é perfumaria. Fale você, meu amor, que agora é minha vez de te escutar.

— Dona Semírames, o café tá pronto? Ah, e a partir de amanhã de manhã, não ponha mais beterraba no suco do doutor Jair, tá?

Preconceito

“Ela é super competente, embora tenha olhos castanhos.”

“Ele é gente finíssima, apesar de ser instrutor de alpinismo.”

“Você imaginava que um cara com o colesterol LDL tão baixo fosse um pianista tão bom?”

“Quem diria, um pai tão amoroso, mesmo sendo destro!”

“Nunca vi alguém tão inteligente, e olha que ele tem 0,75 graus de astigmatismo!”

“Parabéns, foi o discurso mais brilhante que ouvi, apesar de vir de alguém que consome stévia.”

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